A gestão de redes em ambientes complexos acaba de ganhar um novo capítulo com a disponibilidade geral do AWS Interconnect. Para empresas brasileiras que operam cenários de multicloud — seja por estratégia de redundância, compliance de soberania de dados ou necessidade de serviços específicos em diferentes providers — a conectividade sempre foi um ponto de alto atrito operacional.
Historicamente, estabelecer uma conexão privada, estável e escalável entre a AWS e outros provedores exigia uma coreografia complexa de túneis VPN, configurações de colocation e integração com network fabrics de terceiros. Esse esforço de undifferentiated heavy lifting desvia o foco dos times de engenharia das aplicações que realmente geram valor ao negócio. O AWS Interconnect propõe transformar isso em um serviço gerenciado, simplificando a camada de conectividade de ponta a ponta.
O serviço apresenta duas frentes principais: AWS Interconnect – multicloud, para integração direta entre nuvens (atualmente com Google Cloud, e suporte ao Azure previsto para 2026), e AWS Interconnect – last mile, projetado para otimizar a conexão de escritórios e data centers on-premises com a infraestrutura da AWS via parceiros de rede.
AWS Interconnect – Multicloud: Foco em Performance e Segurança
A proposta aqui é uma conexão de Camada 3 gerenciada que trafega pelo backbone da própria AWS e do provedor parceiro, isolando o tráfego da internet pública. O benefício prático para empresas no Brasil é a previsibilidade de latency e a estabilidade do throughput — métricas vitais para aplicações distribuídas.
Do ponto de vista de segurança, a implementação é robusta: o tráfego utiliza criptografia IEEE 802.1AE MACsec nos links físicos. A redundância também é nativa, com cada conexão distribuída por, no mínimo, duas instalações físicas, mitigando o risco de falhas de hardware ou interrupções locais.

Operacionalizando a Conexão
O modelo de provisionamento é orientado a fluxo de trabalho, realizando a configuração via AWS Console com ativação através de chaves, integrando as rotas automaticamente. Para monitoramento, o serviço é nativo ao Amazon CloudWatch, permitindo o uso do Network Synthetic Monitor para rastrear round-trip latency e perda de pacotes, facilitando o capacity planning.

Considerações Estratégicas para Engenharia
Ao planejar a implementação do AWS Interconnect, os gestores de TI devem atentar-se a alguns pontos cruciais antes do deployment:
- Overlapping de IP: O planejamento de CIDRs entre os ambientes (AWS e GCP/On-premises) continua sendo responsabilidade da equipe técnica. Evitar sobreposição de intervalos é mandatário.
- MTU (Maximum Transmission Unit): Esse é um ponto que causa drop de pacotes silencioso e degradação de performance se negligenciado. É essencial que o MTU seja consistente em ambos os lados da conexão.
- Arquitetura: Para cenários de grande escala, a utilização de AWS Transit Gateway ou AWS Cloud WAN é o próximo passo natural para segmentar o tráfego e centralizar políticas de roteamento.
Last Mile: A Ponte com sua infraestrutura Local
O AWS Interconnect – last mile foca na facilidade de estabelecer um link robusto entre o data center do cliente e a AWS. Ele simplifica o BGP e a aplicação de MACsec, além de oferecer SLA de 99.99% até a porta do Direct Connect. Para empresas que ainda mantêm cargas de trabalho on-premises críticas, essa opção reduz significativamente o tempo de ativação de circuitos privados.

O custo é baseado em uma taxa horária fixa conforme a capacidade contratada, reforçando a necessidade de uma análise rigorosa de FinOps para dimensionar corretamente a banda antes de efetivar o deployment.
Artigo originalmente publicado por Sébastien Stormacq em AWS News Blog.